XIX Congresso Cobrapol em Santos discute propostas para melhoria da segurança pública

XIX Congresso Cobrapol em Santos discute propostas para melhoria da segurança pública Destaque

"A Polícia Civil está vivendo dos flagrantes da PM". A frase do especialista em Segurança Pública, Flavio Sapori, deu um choque de realidade nos participantes do 19 Congresso da Cobrapol, iniciado na noite desta terça-feira na Câmara Municipal de Santos. Convidado para apresentar a palestra sobre modernização das polícias, o autor de diversos livros relacionados ao tema, mostrou que a desigualdade social está longe de ser a responsável pelo aumento da violência nos últimos 30 anos. A análise é mais profunda e os dados mais alarmantes.

Tráfico de drogas, impunidade, falta de investimentos e, até mesmo, a "autofagia" dos policiais civis. O professor da PUC de Minas não mediu as palavras ao apontar os erros cometidos pela categoria. No entanto, foi enfático ao dizer que "eles não são os culpados" pelo avanço da criminalidade. Atenta, a plateia aceitou o "tapa na cara" e entendeu a necessidade de se tornar a linha de frente, afinal tem nas mãos uma ferramenta fundamental no controle do crime: a investigação.

"A Polícia Civil olha muito para o judiciário, mas a referência tem que ser na sociedade. Há muitas disputas internas que tiram a capacidade de pensar da instituição. Além disso, a autoestima dos policiais está lá embaixo. A mudança passa por uma outra visão, a de perceber que a tarefa não é cartorial, tem que começar a se cobrar gerencialmente", afirmou Sapori, com um vasto material sobre o cenário atual.

Segundo ele, todo o sistema funciona mal, mas alguns estudos mostram a verdade nua e crua. O sistema prisional e a baixa severidade na punição estão entre os gargalos. Porém, quando o assunto é a elucidação de homicídios e roubos, as imagens do gráfico valem mais do que mil palavras. A polícia consegue apurar, no máximo, 5% dos roubos a cada ano e a taxa média de esclarecimento de homicídios é de 22,4%. "Estamos falando do principal crime da sociedade, o mais grave do código penal", destacou Sapori que, mesmo conscientizando os civis sobre as suas responsabilidades, reconhece os problemas estruturais do setor, começando pela defasagem de efetivo. Em São Paulo, por exemplo, o número de funcionários fixados em dezembro de 2016 era de quase 40 mil. Já o existente não chegava a 32 mil.

"Isso sem contar a deterioração física que afeta a qualidade do serviço prestado. Brasileiros reclamam da falta de papel, mesa quebrada, parede suja. Chega a conclusão de que é mal recebido".

Diante do caos, Sapori defende que a agenda de modernização da Polícia Civil deve ser levada ao Congresso Nacional. "Precisam chamar a sociedade civil, saber buscar apoio em lideranças importantes. O inquérito não pode ser mais o ícone da Polícia Civil. Acredito nessa instituição e defendo que deve continuar existindo. Se não fizermos nada, a violência vai continuar crescendo".

Abertura

A palestra do sociólogo foi o destaque do primeiro dia do encontro da Cobrapol, que estreia na Baixada Santista. O evento segue até quinta-feira com o objetivo de buscar estratégias, aproximar e fortalecer a categoria. Não é à toa que a palavra "União" deu o tom dos discursos de autoridades e lideranças sindicais durante a cerimônia de abertura.

"É uma honra abrir as portas dessa casa para a integração. Tenho respeito e admiração por vocês que arriscam a vida para uma sociedade mais segura", disse o presidente da Câmara, Rui de Rosis.

Anfitrião do Congresso e o responsável por garantir a realização dos debates em Santos, o presidente do Sinpolsan, Marcio Pino, espera que a presença de policiais de diferentes regiões contribua para a luta do estado de São Paulo por valorização. "Queremos obter de vocês conhecimento, pois estão há anos luz daquele que é considerado a locomotiva do País. Não queremos ser uma âncora nas conquistas de vocês. Queremos ser valorizados para que vocês sejam mais ainda", declarou Pino.

A decepção dos profissionais de segurança com o descumprimento das promessas feitas por Bolsonaro durante a eleição também foi citada pelos integrantes da mesa. "O mote da campanha eleitoral desse presidente e deputados foi a segurança pública. Não podemos deixar que agora sejamos relegados a segundo plano. Temos que fazer as discussões de maneira responsável, por isso a importância da união e participação de todos. Temos que ter lealdade com a instituição e com a entidade", ponderou o presidente da Cobrapol, André Gutierrez.