Segurança pública no Brasil: um problema, muitas causas Destaque

Segurança pública no Brasil: um problema, muitas causas

Muitos devem achar “mais do mesmo”. Outros seguem acreditando que o problema está, simplesmente, na falta de vontade da polícia em acabar com a criminalidade. Isso sem contar o grupo do “ver para crer”. São aqueles que se satisfazem ao encontrar meia dúzia de agentes circulando pelas ruas. Logo pensam “olha como a segurança melhorou”. Ledo engano. Basta abrir os jornais e ver as estatísticas para perceber que tudo segue exatamente igual. E o problema não é só a falta de viaturas, armamentos, delegacias em péssimo estado e déficit de funcionários. O buraco é mesmo mais embaixo. Há tempos a segurança saiu da lista de prioridades do governo. Há anos a burocracia tomou o lugar do bom senso. Há décadas, a sociedade e os policiais civis vêm pagando a conta.

Pode parecer exagero, mas a reportagem da Folha de São Paulo intitulada “Com taxas explosivas de crime, país naufraga na ineficiência” mostra que não. Mesmo quem está ciente da situação e normalmente ironiza os discursos do governo se surpreende ao encarar a verdade dos fatos, os números alarmantes e o que existe por trás de uma “simples” demora de duas horas para elaboração de um boletim de ocorrência. Para começar, apenas 15% dos assassinatos são esclarecidos no Brasil. Enquanto isso, na Rússia ou Reino Unido, esse percentual é de 90%. O motivo? Provavelmente muitos. Falta de comunicação, articulação, tecnologia, integração de banco de dados e efetivo, são alguns deles. Poderia ser apenas mais um entre tantos problemas enfrentados pelo Brasil, se isso não significasse impunidade e bandidos à solta prontos para alavancar o número de homicídios.

E não para por aí. O levantamento é um completo show de horrores. A cada 100 inquéritos policiais de homicídios, somente cinco vão a julgamento. Em 2012, por exemplo, 78% das investigações concluídas haviam sido arquivadas. Por que, então, temos penitenciárias com excesso de lotação? Para acomodar em sua imensa maioria traficantes e responsáveis por pequenos furtos. Os casos graves se restringem a 11%. “Infelizmente, a segurança no Brasil adota um modelo falho, sucateado, obsoleto e engavetado pelo governo. Falta fazer uma análise minuciosa, utilizar países de primeiro mundo como exemplo. Quando pedimos a valorização do policial, uma reestruturação das carreiras, uma remuneração justa, não estamos pensando apenas na categoria, mas em toda a sociedade que vive a mercê do crime”, afirmou o presidente do Sinpolsan, Márcio Pino.

A verdade é que segurança é muito mais do que preparar policiais para enfrentar bandidos. Esse é o ponto final da história, que começa no banco da escola, do incentivo ao jovem, da preocupação com o bem estar social. É um tema multidisciplinar, um processo de construção, que precisa de ações constantes da União. Ao se deparar com a matéria da Folha, a Associação Nacional dos Escrivães da Polícia Federal reiterou as mudanças necessárias para uma segurança nos moldes dos Estados Unidos e Europa. É preciso acabar com a burocracia, instituir uma carreira policial com entrada única e a adoção do policial com ciclo completo. “Não queremos nada além do suficiente para que possamos fazer o nosso trabalho com dignidade fazendo, assim, com que a sociedade volte a caminhar sem medo”, finalizou Pino.